Violência contra mulheres: quase metade dos agressores no Ceará tem vínculo com a vítima
Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança mostra que 46,8% dos agressores são parceiros, ex-companheiros, familiares ou conhecidos das vítimas
Foto: SSPDS Ceará: 46,8% dos agressores de mulheres são parceiros ou conhecidos
O relatório “Elas Vivem: a urgência da vida”, divulgado pela Rede de Observatórios da Segurança, revela que quase metade das agressões contra mulheres no Ceará é cometida por pessoas que mantêm algum tipo de vínculo com as vítimas. Conforme o levantamento, 46,8% dos agressores são companheiros, ex-companheiros, familiares ou conhecidos.
Ao longo de 2025, foram registradas 197 ocorrências de violência contra mulheres no estado. O número representa uma queda de 4,8% em relação ao ano anterior. Apesar da redução, especialistas alertam que isso não significa necessariamente melhora no cenário, já que muitos casos não são denunciados ou não chegam a ser oficialmente registrados.
Mesmo com a diminuição nas ocorrências, houve aumento nas mortes de mulheres. Segundo o relatório, 98 mulheres e meninas foram assassinadas no Ceará, considerando casos de feminicídio, homicídio e transfeminicídio, o que representa crescimento de 4,4% em comparação ao período anterior.
A proximidade entre vítimas e agressores é um dos principais padrões observados nas violências de gênero. Grande parte dos crimes acontece dentro do ambiente doméstico ou em relações afetivas, o que pode dificultar a denúncia. Em muitos casos, as vítimas dependem emocional ou financeiramente do agressor, além de enfrentarem medo de represálias ou pressão familiar.
Os pesquisadores também destacam que a violência costuma evoluir de forma gradual, começando com agressões verbais, ameaças ou violência psicológica e podendo chegar a agressões físicas ou tentativa de feminicídio. Entre os casos registrados no Ceará estão tentativas de feminicídio, agressões físicas, homicídios, violência sexual, tortura e cárcere privado. Uma mesma vítima pode sofrer diferentes tipos de violência ao longo do tempo.
Dados nacionais preocupam
Ao ampliar a análise para os nove estados monitorados pela Rede de Observatórios da Segurança, o relatório aponta 4.558 mulheres vítimas de violência em 2025, um aumento de 9% em relação a 2024. A média indica que pelo menos 12 mulheres sofreram algum tipo de violência a cada 24 horas nos estados analisados.
No total, foram registrados 546 casos de feminicídio, além de sete transfeminicídios. Somando também homicídios, o número chega a 1.004 mortes de mulheres no período.
Violência sexual atinge principalmente jovens
O levantamento contabilizou 961 registros de estupro ou agressão sexual em 2025, número 56,6% maior que o do ano anterior, quando foram identificados 602 casos. Crianças e adolescentes de 0 a 17 anos representam 56,5% das vítimas.
Os dados mostram ainda que 78,5% das agressões foram cometidas por companheiros ou ex-companheiros, reforçando que a violência de gênero está fortemente ligada ao ambiente doméstico e às relações afetivas.
Falta de dados dificulta políticas públicas
Outro problema apontado pelo relatório é a ausência de informações completas sobre os casos. Dados como raça das vítimas ou circunstâncias detalhadas do crime nem sempre são registrados, o que dificulta a criação de políticas públicas mais eficazes e impede a compreensão real da dimensão do problema.
Prevenção e mudanças culturais
Para os pesquisadores, o enfrentamento da violência contra mulheres precisa ir além das ações policiais e judiciais. O estudo defende campanhas educativas, debates sobre igualdade de gênero nas escolas e fortalecimento das redes de proteção às vítimas.
Também é sugerido que a violência de gênero seja tratada como questão de saúde pública, com participação mais ativa de profissionais da saúde, educação e assistência social na identificação precoce de situações de risco.
Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, a redução efetiva da violência depende de ações integradas entre poder público, instituições e sociedade civil, capazes de enfrentar as causas estruturais do problema.






COMENTÁRIOS